"Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras, se queremos que pelo menos os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.”
In Aparição, de Virgílio Ferreira
Quando falamos, procuramos, com maior ou menor esforço, a palavra certa, aquela que exprima aquilo queremos dizer. Assim de repente, podemos, por exemplo, dizer que um filme é giro ou podemos arriscar um pouco mais dizendo que é um filme à Spielberg. É claro que isto só resulta se estivermos a falar com alguém que conheça os filmes do realizador americano, ou, realmente, arriscamos estar a falar napolitano com franceses.
Mas, outras vezes, acontece que ao falarmos com alguém somos mal-entendidos, possivelmente porque ambos associam referentes diferentes às palavras ou expressões. Repare-se: perguntei a uma colega o que é uma pessoa excêntrica, e ela respondeu-me que é alguém que sai da normalidade, extravagante, desprendido de algumas das regras de como viver em sociedade...; depois perguntei a um colega o que era para ele um excêntrico, ao que ele respondeu - "é um gajo que ganhou o Euromilhões"!. Outras ocasiões, direccionamos o discurso para a polissemia, para a ambiguidade e, por vezes perde-se o controlo sobre o significado do que dizemos e ouvimos um: "mas estás a falar de quê, mesmo?".
A verdade é que o que está aqui em questão é a denotação e conotação das palavras. Resumidamente, podemos conceber a denotação como a imagem associada a uma determinada palavra. Neste sentido a palavra banco é praticamente inequívoca. Mas não completamente, porque é uma palavra polissémica e, pode, pelo menos, designar tanto a peça de mobiliário que utilizamos para nos sentarmos como a instituição financeira. Mas, neste caso mantemo-nos dentro dos limites da denotação. Por outro lado, a conotação é um mecanismo de significação completamente diferente. Em primeiro lugar é um espaço aberto, o que significa que uma mesma palavra ou expressão pode, com o passar do tempo, adquirir uma infinitude de novas associações. Se mudarmos do banco para a cadeira, talvez já consigamos vislumbrar o que é a denotação. Associamos, dentro da denotação, a cadeira a uma peça de mobiliário ou mesmo a uma disciplina do ensino superior, mas, se nos desviarmos para o domínio da conotação já poderemos estar a pensar em poder, por exemplo. Então aí há um rol de associações latentes desde a cadeira real, ao estado novo e , passando por
Kosuth e pela arte conceptual e por aí fora... As palavras estão subordinadas à condição de carregarem consigo todos estes significados.
Mas se as palavras têm estas dimensões, não o terão também as imagens?
Agora, quando associamos palavras ou discursos a imagens estamos a mover-nos em áreas bem mais híbridas. No entanto, a complementaridade e harmonização das duas linguagens faz converger o significado veiculado pela sua utilização conjunta, apesar de o desmultiplicar. A união de palavra ou texto com imagem é uma representação tridimensional de significado: (1) palavra, (2) imagem, (3) palavra+imagem, e cada qual detentora de uma significação específica.
São estes os desafios que se colocam no desenvolvimento de ambientes de aprendizagem (a distância).